Eu via o que ninguém via.
Todos estavam sempre muito ocupados. Senhores de blazer e sapatos mais ou menos engaxados, andando apressados com uma pasta embaixo do braço (o que continua? Documentos? Contas? Contracheque? Desenho da filha?).
Senhorinhas na mesa do café da esquina, bebericando o chá vagarosamente enquanto tagaleravam feito matracas - num paradoxo incrível!
Crianças correndo pelas ruas com os joelhinhos todos estrupiados, chegando bem antes que a mochila em suas costas, e deixando as mães bem pra trás - sempre esbaforidas, despenteadas, exautas... E com cara de quem indaga "O que é que eu vou arrumar com esse moleque quando chegar em casa?".
Um jornaleiro entediado lendo o jornal do dia à espera de clientes;
Um feirante oriental arrumando suas suculentas frutas na bandeja;
Um cachorro da rua fazendo sua vistoria matinal nas lixeiras.
E era sempre assim, todo santo dia.
Cada um imerso em seu agitado universo particular, num cotidiano repleto de banalidades que ocupas os horas de seu dia.
Assim, ninguém percebeu quando,
num dia aparentemente como qualquer outro,
uma coisa incrível aconteceu.
E eu vi.
Porque eu via o que ninguém via.
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