sábado, 24 de outubro de 2009

As pessoas não deviam morrer.

Não deviam. Simplesmente não deviam.
Deixar de existir só serve pra fazer quem fica ficar triste, com um gosto amargo na boca, e sentir uma saudade doída, de quem nunca mais vai sana-la. Só serve pra deixar um buraco no peito, e lágrimas nos olhos mesmo com as lembranças mais bobas.
E daí se o mundo não teria capacidade pra todo mundo? A gente dava um jeito. Já demos um jeito de tanta coisa, de voar, curar doenças antes incuráveis. Duvido que a gente não daria um jeito pra acomodar todo mundo, também. Se formos adaptar o velho dito popular, onde comem 6,5 bilhões da habitantes, porque não comeriam mais? Ora bolas.
E nem me venha com aquele papo de inovação, de ciclo que se fecha, de que a vida é assim. Nem vem. Porque a verdade, meu caro, é que quando as coisas estão boas você quer que elas continuem assim pra sempre. Sem tirar nem pôr. Quer que o momento, aquilo seja eterno. E o mesmo acontece com as pessoas que a gente ama.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Conto - Capítulo I

Eu via o que ninguém via.

Todos estavam sempre muito ocupados. Senhores de blazer e sapatos mais ou menos engaxados, andando apressados com uma pasta embaixo do braço (o que continua? Documentos? Contas? Contracheque? Desenho da filha?).
Senhorinhas na mesa do café da esquina, bebericando o chá vagarosamente enquanto tagaleravam feito matracas - num paradoxo incrível!
Crianças correndo pelas ruas com os joelhinhos todos estrupiados, chegando bem antes que a mochila em suas costas, e deixando as mães bem pra trás - sempre esbaforidas, despenteadas, exautas... E com cara de quem indaga "O que é que eu vou arrumar com esse moleque quando chegar em casa?".
Um jornaleiro entediado lendo o jornal do dia à espera de clientes;
Um feirante oriental arrumando suas suculentas frutas na bandeja;
Um cachorro da rua fazendo sua vistoria matinal nas lixeiras.

E era sempre assim, todo santo dia.
Cada um imerso em seu agitado universo particular, num cotidiano repleto de banalidades que ocupas os horas de seu dia.

Assim, ninguém percebeu quando,
num dia aparentemente como qualquer outro,
uma coisa incrível aconteceu.

E eu vi.
Porque eu via o que ninguém via.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Eu tô tentando

eu tô tentando largar o cigarro
eu tô tentando remar meu barco
eu tô tentando armar um barraco
eu tô tentando não cair no buraco

eu tô tentando tirar o atraso
eu tô tentando te dar um abraço
eu tô penando pra driblar o fracasso
eu tô brigando pra enfrentar o cangaço

eu tô tentando ser brasileiro
eu tô tentando saber o que é isso
eu tô tentando ficar com Deus
eu tô tentando que Ele fique comigo

eu tô fincando meus pés no chão
eu tô tentando ganhar um milhão
eu tô tentando ter mais culhão
eu tô treinando pra ser campeão

eu tô tentando ser feliz
eu tô tentando te fazer feliz(bis)

eu tô tentando entrar em forma
eu tô tentando enganar a morte
eu tô tentando ser atuante
eu tô tentando ser boa amante

eu tô tentando criar meu filho
eu tô tentando fazer meu filme
eu tô chutando pra marcar um gol
eu tô vivendo de rock 'n roll


[Eu to tentando - Kid Abelha]


Eu tô tentando.
Desde o começo do ano, faço aula de acordeon.
No segundo semestre, comecei a fazer capoeira.
Tô em processo de tirar carteira de motorista, tendo aula de direção.
E ainda peno indo nos ensaios da bateria pra fazer a levada do samba realmente legal.
No forró, ainda preciso ir mais. Rodopiar pra lá e pra cá pra me soltar.
E eu to feliz assim.