quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Ela estava lá, serena. E tudo lhe parecia no devido lugar. Os sapatos espalhados pelo chão do quarto, os livros desarrumados nas estantes. A psta de dente jogada na pia. O espelho manchado. O montinho de poeira varrido, mas não jogado fora, no canto da sala.
Sentiu-se livre. Livre para deixar as estantes empoeiradas, para não arrumar a cama. Sentia um certo prazer no no mini-caos particular de seu lar. Ela sabia exatamente onde encontrar o que queria, mesmo que fosse embaixo de uma pilha de roupas espremidas no armário.
Mas não abusava dessa liberdade. Seu lar era perfeitamente habitável, aconchegante até. As pessoas que lá chegavam também sentiam-se livres, à vontade. Nada daqueles ambienntes onde tudo está tão em ordem que dá medo de sentar, ou passar, e desarrumar e sujar aquele trabalho, outrora feito com tanto esmero por alguém. Não. A mesa não estava suja, mas estava lotada de bagulhos, que iam desde chaves de casa até bananas, passando por folhas de propaganda de pizzaria, brincos, pentes... O sofá não estava empoeirado, mas estava repleto de rugas, típicas de muitas sentadas seguidas. Os farelos de coisas se espalhavam por toda a bancada da cozinha. Havia meia dúzia de copos não-lavados na pia.
E, ela, estranhamente, gostava disso.
Por que sabia que não tinha momento exato para arrumar a cama. Tirar as coisas de cima de mesa. Ajeitar a sala. Limpar a cozinha.
Se quisesse, poderia até deixar a revista da semana no banheiro, para a próxima vez que se recolhesse.
Era tudo no seu tempo. No seu controle.
E não tinha como não gostar disso.

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